terça-feira, 9 de outubro de 2007

Cara... passa, isso tudo.

a tamar

Vai, tartaruga. Faz um passo, desses quatro, chegar ao fim. Isso. Pata dianteira adiante, cavando leve a areia do deus-noite. Mais um passo lento, de só quem tem a vida longa toda pela frente. Vai, tartaruga, pisa a areia amarela. Deixa pra trás o ovo, encavado, deixa pra trás a vala, segue na direção daquela velha vela que cruza o mar.

Sai, tartaruguinha, do ventre da mãe-terra rumo aos braços de mar que vão. Espera a onda voltar, pisa na areia molhada e prende a respiração! É agora, no susto, tumulto, momento em que a onda volta, e afoga. Não olha aos lados, não. Deixa teus irmãos na batalha sozinhos, e finca as garras que tu não tem no monstro do momento, que te ataca agora.

Pensa, tartaruga, pensa em como era nas eras que se passaram. Pensa na grande tartaruga que, sobre a carapaça, sustinha quatro elefantes. Pensa que além disso, além desses paquidermes – de tamanhos de meu Deus! -, o velho quelônio cósmico carregava, por entre estrelas, um imenso tabuleiro de humanos e emoções. Pensa nos passos que tocavam planetas, nos rastros que corriam com estrelas, pensa nos desvios que fazia, quando cometas batiam no imenso dorso nu. Pensa que tu, também, agora, carrega um mundo.

Tenta, tartaruguinha, tenta cruzar os mares. Passa pela espuma branca, visa o céu de anil, mergulha sob arrebentação e nada, nada como o mar pede que se faça. Agora pra trás ficou a areia toda, eternidade, ficou o ovo chocado, ficaram os irmãos mortos, ficou a paz do subsolo. À frente, tartaruguinha, existe um mundo-mar, existe futuro e lar pra muitas vidas a mais. Vai, sai, tenta, tartaruga, sustenta o sol, a lua, singra o mar. Vai, enquanto eu fico aqui, na praia, a te olhar.



5 comentários:

Arthur Malaspina disse...

Muito bom o texto... acho que foi um dos seus de que mais gostei.

iris disse...

lindo!
mas eu iria com a tartaruga... ao mundo-mar
:)

Ariadne Celinne disse...

Simplesmente lindo, a sonoridade, a escolha das palavras.. parabéns!

Vinício dos Santos disse...

acho que eu nunca vi um retrato tão terno e bonito feito esses

tá de parabens, hein Leandro

(e ainda usou o mito da Grande A'tuin de um jeito ridiculamente inteligente ... sensacional mesmo!)

Thiago Augusto Corrêa disse...

Não tenho o que dizer, eu já lhe disse, alias.

É simples e bonito.